quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
GUSTAVO SOBRAL
Tibau do Sul e praia da Pipa: conversas à beira-mar
Inspirado por pequenas peças sobre a vida cotidiana como o The Talk of the Town, da revista The New Yorker, que completou cem anos em 2025, e pelas Esquinas da revista piauí, que chega aos vinte agora em 2026, Gustavo Sobral imagina um The Talk of the Beach, ou quem sabe Enseadas, trazendo esse espírito para o ambiente do verão e da praia.
Conversas à beira-mar é um livreto digital do jornalista e escritor, resultado de anotações durante um verão vivido na praia. Em textos breves e desenhos, o autor registra impressões sobre o tempo e o espaço à beira-mar, observando o cotidiano do litoral, paisagens, personagens e gestos que costumam passar despercebidos.
O trabalho combina escrita e ilustração em um experimento de jornalismo visual que acompanha o movimento das ondas, dos vendedores, das jangadas, dos surfistas e da vida comum das praias. O resultado, que poderia ocupar as páginas de uma revista, transforma cenas corriqueiras em narrativa sensível, onde texto e traço se complementam.
O livreto está disponível em formato digital para baixar e ler, enquanto a versão impressa está prevista para ser lançada em breve, conforme anunciado pelo autor.
O projeto integra o conjunto de obras que Gustavo Sobral disponibiliza em seu site, onde também estão títulos como Cenas Natalenses e O Guia do Verão.
O acesso direto ao livreto está em https://gustavosobral.com.br/conversas-da-praia-anotacoes-de-um-verao-a-beira-mar/
A água e sua sacralidade
Padre João Medeiros Filho
Nos
meus tempos de jovem padre, ao adentrar numa sacristia, havia em destaque um
quadro sobre uma cômoda, afixado na parede, contendo os nomes do papa, do bispo
local e a indicação da “oratio imperata”. Esta era uma oração obrigatória,
determinada pela autoridade diocesana, a ser rezada na missa, em alguns períodos. De
dezembro a março, costumava-se recitar a prece “ad petendam pluviam” (para
pedir chuvas). Nas comunidades romanas dos primeiros séculos do cristianismo, nos
períodos de maior estiagem, costumava-se realizar o canto processual das
ladainhas (conhecido por rogações), suplicando a clemência divina para enviar chuvas. As
tradições vão sendo esquecidas e abandonadas, mesmo no catolicismo.
O Rio Grande do Norte
conheceu a luta de Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros por água potável e
abundante. Seu engajamento nessa causa foi marcante, a ponto de seu nome ter
sido aposto a uma adutora potiguar. Citava amiúde a Declaração Universal dos
Direitos Hídricos, assinada por vários países em 1992, no Rio de Janeiro.
Consta do seu artigo 4º: “O equilíbrio e o futuro de nosso planeta dependem da
preservação da água e de seus ciclos.” O inolvidável pároco de São Paulo do
Potengi compreendeu os gestos de Cristo, ao
demonstrar sua predileção pelo precioso líquido.
A água é um elemento
sagrado, essencial à vida, exaltado na Sagrada Escritura. No princípio, “o
espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1, 2). No dilúvio, “elas
purificaram a terra” (Gn 7,10-24). Moisés realizou a travessia dos hebreus pelo
Mar Vermelho, libertando-os do opróbio dos egípcios (Ex 14, 21ss; 15,1-21). No
deserto, fez brotar da rocha uma fonte para
saciar a sede do povo peregrino em busca de Canaã (Nm 20, 10). Em seu batismo,
Cristo foi banhado no Rio Jordão (Mt 3, 13). Na cena do juízo final,
ouvir-se-ão palavras que fazem parte das Obras de Misericórdia: “Tive sede e me
destes de beber” (Mt 25, 35). Fomos aspergidos ou molhados nas fontes batismais
e inseridos na comunidade cristã. O corpo humano contém mais ou menos sessenta por
cento do fundamental líquido, indispensável ao funcionamento dos órgãos. No
catolicismo, sua importância é tanta
que em todas as bênçãos o sacerdote asperge as pessoas ou objetos.
Nos evangelhos, Jesus
apresenta-se marcadamente aquático. Foi batizado no Rio Jordão (Mt 3,13-17).
Posteriormente, tornou o precioso líquido matéria do sacramento do batismo, por
considerá-lo um princípio vital. Dessedentou-se no Poço de Jacó, onde tocou o
coração da samaritana, trazendo-a de volta à graça divina. Navegou, muitas
vezes, pelo Mar da Galileia (Mc 6,45). Fez dele e das barcas sua cátedra (Mc
4,1-2; Lc 5,1-3). Nos momentos de medo dos apóstolos, ordenou às ondas do mar
que se acalmassem (Mc 4,39) e, em outra ocasião, caminhou sobre elas (cf. Jo 6,
18). Certa feita, determinou que dois discípulos seguissem um homem carregando
um cântaro contendo o importante líquido (Mc 14,13). Durante a Última Ceia,
tomando jarro, bacia e toalha, lavou os pés de seus apóstolos (Jo 12,1-17),
gesto repetido nas celebrações litúrgicas da Quinta-feira Santa. No Calvário,
pendendo do patíbulo da cruz, de seu lado aberto por uma lança “jorraram sangue
e água” (Jo 19,34), símbolo da Eucaristia. Prometeu que do interior de quem nele
acreditasse, jorrariam torrentes vivas (Jo 7,
37-39). Segundo os evangelistas, Ele escolheu os doze seguidores,
transformando-os em “pescadores de homens.” (Lc 5, 11).
Não
se pode esquecer: foi diante de um rio, lago ou mar que Cristo começou a sua
Igreja, convocando os primeiros discípulos. Certa feita, passando pelo Mar da
Galileia, viu Pedro e André lançando ali as suas redes. Diante desta cena,
Jesus dissera-lhes: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.”
(Mt 4, 19). De igual modo, chamou os irmãos João e Tiago, que lavavam e
consertavam as tarrafas (Mc 1,14-20; Mt 4, 18-22). Voltando à nossa atualidade:
nosso preclaro confrade Woden Madruga costuma fazer valiosas anotações e
interpretações, acompanhando cuidadosamente a precipitação pluviométrica na
região nordeste. Neste início de ano, diante da escassez das reservas hídricas,
deve-se rezar pedindo um copioso inverno. Lembremo-nos da promessa de Deus a
quem Lhe rogasse com perseverança e fé: “Derramarei água na terra sedenta e
torrentes sobre o solo ressecado” (Is 44, 3).
sexta-feira, 9 de janeiro de 2026
Cartas de Cotovelo- Tempo de verão
2026-Jan. (1)
Por: Carlos Roberto de Miranda Gomes, veranista
Primeiras divagações de janeiro de
2026 em Cotovelo, tenho nova oportunidade de rever pessoas, amigos e amigas do
meu círculo de amizade e aproveitar alguns novos serviços disponíveis numa
praia que cresce e já se torna um bairro de Natal, mesmo contra a vontade de um
diminuto grupo, que pretende ficar no tempo das cavernas.
A rotina
de um idoso geralmente é a mesma, ou até mesmo, vai diminuindo mercê da falta
de disposição corporal e espiritual do dia a dia.
Ultimamente
não tenho aproveitado as delícias da praia pela dificuldade de caminhar e medo
do sol inclemente, que já me fez passar por três cirurgias de pele. Então, fico
confinado no meu quarto e aproveito a vantagem da varanda do primeiro andar
para realizar leituras que conduzo de Natal todas as semanas.
Neste
começo de ano, foi prazerosa a releitura da “Conversa de Calçada”, de Manoel
Onofre Júnior, com narrativas do cotidiano em tempos diversos, trazendo-me
lembranças gratas para quem já chegou aos 86 anos. Também, em reedição de
Abimael (Sebo Vermelho), consumir o livro “Cultura de Massa em Processo”,
ensaio do falecido jornalista Alexis Gurgel em 1986, exemplificativo das
crônicas de um tempo mutante, até demais, no campo da cultura de massa,
registrando a exata e rápida travessia de mutações do processo e permitindo
avaliar o que evoluiu ou que ultrapassou os limites do razoável.
Um terceiro livro, que não sai da
cabeceira para renovadas leituras – “Papa Francisco – A Esperança Nunca
Decepciona”, organização de Hérnan Reyes Alcaide, conduzindo-me a reflexões
diferenciadas das minhas emoções.
Já
o citei em outra oportunidade, quando escrevi sobre o culto da Esperança. Mas
agora flui as lições sobre as “migrações”, face aos comentários do raquítico grupo
do ódio, que ameaçam as cercanias de Cotovelo, numa atitude retrógrada de
criticar qualquer beneficiamento físico ou social que se empreende na
comunidade, querendo regredir ao tempo da pedra polida.
Ora, todos que aportaram neste lugar,
o fizeram pelo conhecimento de sua beleza, hospitalidade e placidez, repartido
essas benesses com os caiçaras, em total harmonia. Eu fui um desses atraído,
mas não adquiri aversão ao progresso, porque isso faz parte da geopolítica
universal.
A hostilidade aos que migram para
estas paragens, com o mesmo sentimento de lazer ou de oportunidade espiritual,
visual ou econômica, conflita com a doutrina cristã, como apregoa o Papa
Francisco, que comenta o sofrimento natural dos migrantes, forçados a abandonar
a terra de origem e a falta de acolhimento dos que já estão aqui estabelecidos,
relegando os princípios do “acolher, proteger, promover e integrar” aqueles que
chegam com bons propósitos.
Em Mateus, 10.8 temos as palavras do
Salvador: “De graça recebestes, de graça dai”.
Assim, devemos acolher os migrantes –
em sentido genérico, desde que mantenham o tangível sentimento de
pertencimento.
Aceitar a integração do migrante é de
fundamental importância e não o combater, simplesmente, porque vem aqui tentar
empreender, ajudando a comunidade e com ela dividindo as vantagens que
conseguir.
Por derradeiro, relembro, que assim
aconteceu com as migrações históricas dos Hebreus, Italianos, Japoneses,
Alemães, Africanos e Latino, que ajudaram a fazer um Brasil melhor.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2026
Marcas de intolerância e intransigência
Padre João Medeiros Filho
Na sua época, Cristo estava cercado desses gestos. Judeus e samaritanos se odiavam (cf. Jo 4, 9). Os homens tratavam as mulheres como inferiores. Os líderes religiosos judaicos desprezavam o povo (cf. Jo 7, 49). Sintomática é a frase de Tiago e João diante da recusa dos habitantes da Samaria em receber o Mestre: “Senhor, quereis que mandemos descer do céu fogo para que os destrua”? Porém, Jesus os repreendeu. Nos últimos tempos, tem-se a incômoda sensação de que as manifestações públicas de intolerância e intransigência aumentam. Muitas, lamentavelmente, alimentadas por lideranças políticas, religiosas e midiáticas. É verdade que, no Brasil, ao longo dos anos, não se viveu apenas de coerências, convergências, similaridades etc. A vida é complexa. Tem-se de lidar consigo mesmo e com outros, em meio às divergências, dúvidas, diferenças e contradições. Por isso, um desafio para o ser humano é coexistir e conviver. Não é fácil escolher o que representa um bem para si e os semelhantes. Nisso emerge a ética e dela a responsabilidade cada um por suas atitudes e as consequências para si e a sociedade. Por isso, a tolerância – atitude de aceitação e respeito àquele que diverge – exige uma postura ética. Para a convivência harmônica, não é obrigatório ter os mesmos estilos de vida, crenças, ideologias e opiniões. Divergência e discordância são componentes da diversidade humana, compondo o encantador mosaico da vida. O apóstolo Paulo já aborda tal pluralidade na metáfora do corpo na Carta aos Coríntios (cf. 1Cor 12, 1ss). A tolerância não consiste em aguentar ou suportar. Trata-se do reconhecimento implícito e explícito do direito que cada um tem de ser aquilo que é, ou continuar a ser. Hoje, fala-se tanto em democracia. Mas, quem mais usa o termo, em geral, age impositivamente. A regra de ouro do cristianismo, contida no Sermão da Montanha, reflete o postulado de ser diferente e o dever do respeito: “Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles.” (Mt 7, 12). Então, qualquer postura deve ser aceita? Não. Por isso há regras de convivência que passam pelos deveres e direitos. É preciso agir coletivamente para se garantir o direito de ser e existir. Corruptos precisam responder pelo uso abusivo e ilegal de recursos que devem garantir a vida. Racistas e sexistas devem ser punidos ao tratarem com inferioridade um ser humano. Quem abusa da liberdade de expressão para ofender e violentar com palavras e atos aquele que não se aceita como igual (ou de quem se discorda) deve ser punido. A intolerância é fundamentalmente a negação do direito de o diferente existir. É visão unilateral da vida, concepção exclusivista e impositiva da existência. Apresenta-se como tradução da egolatria. Decreta-se certo e verdadeiro o que lhe agrada ou convém. Daí, a tentação de uma única concepção de mundo. Quem é intransigente deseja impor o pensamento com o qual se identifica. Há quem chegue até a usar da força física e violência. Não faltam os arautos da liberdade e democracia, mas a seu modo e segundo seus interesses. Concretiza-se em preconceitos, discriminação e ódio. Tais atitudes manifestam-se em ações coletivas particularizadas e concretizadas em segregações e exclusões. Por vezes, também se revertem em ações coletivas organizadas: atentados, invasões, assassinatos etc. Tais práticas podem igualmente ser assumidas por governantes e reverter em políticas ou transformar em leis, que interessam a alguns (grupos e partidos) e não à coletividade. Disto resulta a discussão entre oportunismos, legalidade e legitimidade. Nem tudo aquilo que é posto como lei pode ser considerado justa e legitimamente humano. A intolerância não tem idade, gênero, cor, classe social, nacionalidade, nível de instrução, religião. Não é sinônimo de “direita” ou “esquerda”. É própria de quem não quer lidar com as dessemelhanças dos humanos. Reconhecer a própria intolerância (deixar de se ver como centro do universo) é o grande passo da superação de atitudes ditatoriais. É preciso fazer política de forma respeitosa, na qual todos tenham o mesmo lugar e oportunidade. Convém lembrar o pensamento do apóstolo Paulo: “E se tiverdes outro modo de pensar, cabe a Deus esclarecer, só Ele é Juiz.” (Fl 3, 15).
SOPRA UM VENTO FORTE
quarta-feira, 7 de janeiro de 2026
A chegada de um Novo Ano
No dia primeiro de janeiro, no calendário litúrgico da Igreja, celebra-se a solenidade de Maria, Mãe de Deus. Ela é o sacrário ou tabernáculo do Príncipe da Paz. Na Virgem Santíssima uniram-se o Criador e a criatura. No seu coração palpitam o Eterno e o temporal. Nela, o Onipotente uma vez mais demonstrou sua vontade de nos amar. Maria é plena de Graça e de Deus, por isso Rainha da Paz, como proclama a Ladainha Lauretana, a ela dedicada. O que gera a violência é a ausência de Deus, deixando a criatura humana sem rumo. O pecado leva à guerra, qualquer que seja a sua manifestação ou dimensão, negando a nossa fraternidade humana e cristã. No alvorecer de um Novo Ano, em homenagem a Nossa Senhora, comemora-se também o Dia Mundial da Paz. Esta data foi criada em 1967, pelo Papa Paulo VI. 2026 terá como tema, escolhido por Leão XIV: “A paz esteja com todos: rumo a uma paz desarmada e desarmante.” Desejamos a todos um ano de graça e concórdia, diálogo e encontro. Que em 2026 sopre constantemente a brisa suave da Paz, alegria e esperança. Envolvam-nos ondas de amor, ânimo e coragem. Praza aos céus que a saúde faça morada em nosso corpo e nossa mente. Que desvaneçam a mentira, as agressões, a desarmonia, a injustiça e o espírito de vingança. Possa a fé nos envolver e fortalecer para enfrentar os desafios do ano que desponta. E que as maravilhosas bênçãos divinas se irradiem por toda a humanidade e pelo mundo inteiro. Um Ano Feliz para todos, fecundo de Deus, sem tristezas e sem muitos sofrimentos e com um copioso inverno. São os votos de Padre João Medeiros Filho e seus familiares. Um abraço fraterno e minha bênção sacerdotal. Que a benção de Deus Todo-Poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo desça sobre vós e em vós permaneça para sempre. Amém.
Padre João Medeiros Filho
A mensagem da Epifania do Senhor
Padre João Medeiros Filho
A palavra Epifania deriva do grego, cujo sentido é manifestação ou aparição. No Brasil, após a supressão do feriado nacional do Dia de Reis em 1967, celebra-se a Epifania no primeiro domingo do ano a fim de ressaltar a importância da festa. Os demais países permanecem comemorando-a no dia 6 de janeiro. Jesus manifesta-se àqueles que não faziam parte do povo da Antiga Aliança. Nasceu para mostrar que o Amor de Deus pelos homens não tem discriminação. Ele é Pai de todos. “Deu-nos o espírito da adoção pelo qual chamamos Deus de Abba, Pai” (Gl 4, 5). Atualmente, vive-se num mundo egoísta, sem fraternidade, em contradição aos propósitos de Natal. Cada vez mais as pessoas se fecham, revelando-se insensíveis e indiferentes. Cristo, apesar de sua grandeza, fez-se pequeno e humilde para não amedrontar. Mesmo os desconhecidos são recebidos com ternura e respeito. É uma das lições a ser tirada da viagem dos Magos, que acorreram a Belém para visitar o Menino. A partir da vinda de Jesus, “já não há judeu nem grego” (Gl 3, 28). Deus cuida de seus filhos, eis um dos ensinamentos da Epifania do Senhor. Sentir a presença de Cristo é fruto de busca e caminhada. Pouco importam condição social, raça, língua ou ideologia. Ele é Irmão Universal. Nasceu tanto para os pastores como para os estrangeiros do Oriente, cuja religião divergia daquela de seu povo. Deus respeita e acolhe a religiosidade de cada um. Impressiona-nos o relato de Mateus a respeito da indagação dos Magos sobre o local do nascimento do Salvador e a ignorância de Herodes e dos poderosos de seu tempo. “Onde está o Rei dos Judeus, que acaba de nascer?” (Mt 2, 2). Por vezes, nossa alienação mística é idêntica. Cristo está perto de nós e não O identificamos. Falta-nos o desejo de busca e descoberta do divino. Os Magos viajaram por terras estranhas, enfrentaram adversidades, inclusive climáticas. Entretanto, foram recompensados com a alegria do encontro. Não apenas físico, mas espiritual, em comunhão com o Menino-Deus. Caminhar, procurar e rezar são gestos dos Magos. “E prostrando-se O adoraram” (Mt 2, 11). Exemplos para o mundo moderno: saber ir à procura do Transcendente. Jesus revela a face divina a toda humanidade, representada pelos que vieram do Oriente. O Amor de Deus é infinito. Ele age, além de nossas barreiras ideológicas ou religiosas. Foram abolidos direitos e privilégios. A graça divina inunda o coração daqueles que aceitam o Salvador. É o que se pode sentir no evento da Epifania. Em todas as pregações e ensinamentos Cristo mostra que é inconcebível a exclusão espiritual. É incoerente uma comunidade cristã que discrimina pessoas e se fecha como gueto, seita ou clube de privilegiados. Ela não poderá ser chamada cristã, pois Jesus é abertura e misericórdia divina estendida para levar perdão e amor. As atitudes de Cristo demonstram que Ele veio para todos. Não se curvou às estruturas do seu tempo nem se deixou escravizar pelas regras das instituições e poderes. É o Amor, que não se prende nem se esconde. É Vida, que não se aprisiona nem se aniquila. É o Infinito, o Eterno. Impossível limitá-lo ou não o reconhecer. A Epifania é festa das virtudes da fé e humildade. O homem, mesmo dotado de inteligência, sabedoria e erudição (presentes nos Magos do Oriente) deve dobrar os joelhos diante de uma Criança e reconhecer nela a Divindade latente. É o legado dos Magos, movidos pela fé, na caminhada que os leva aos pés do Salvador. Baltasar, Belchior e Gaspar encontraram Cristo. Eis a felicidade maior do coração humano! Diz-nos a narração do evangelho de Mateus: “E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o Menino” (Mt 2, 9). Era o sinal para encontrar Jesus na dimensão espiritual, que se traduz na proximidade e comunhão com o sagrado. O profeta Isaías faz-nos um convite inadiável: “Levantate, ilumina-te, porque chegou a tua Luz. E a glória do Senhor raiou sobre ti” (Is 60, 1).
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
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PERSONALIDADE MULTIFACETADA Marc de
Groot: em busca de um tempo perdido |
27 DE
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10 Domingo Jomal de Fato
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MÁRCIO DE LIMA DANTAS
Especial
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Triste de quem vive em casa Contente com o seu lar Sem que um
sonho, no erguer de asa Faça até mais rubra a brasa Da lareira a abandonar!
Fernando Pessoa
Marc de Groot
nasceu em Eindhoven, Holanda (1963). Reside hoje em Ponta Negra, Natal.
Arquiteto paisagista, durante sua formação estagiou um ano naAlemanha e outro
nos EUA. Aqui no Brasil, cursa o sexto período de Psicologia. Personalidade
multifacetada, dedica-se a diversas atividades sempre relacionadas ao estético
e suas adjacências. Fornece design de joias, quase sempre voltadas para a
confecção de anéis.
Como todo e qualquer holandês, é conduzido pela
pontualidade e pelo perfeccionismo, gostando de contratos sérios e levando em
conta suas razões interiores. Por exemPIO, determina os materiais a serem
usados nos anéis, preferindo ouro e prata legítimos. Sempre combina cores das
pedras, justapondo opostos e acarretando um efeito estético de rara beleza e
preciosidade. Entre as pedras que utiliza estão granada, ametista, topázio,
turmalina e água-marinha.
Eis que temos a valia e o valor em uma boda de grata
satisfação, para quem contempla ou adquire uma peça e deseja o melhor, pois o
barato sempre sai mais caro. Mais adiante veremos como esse manuseio de cores
antípodas reverbera de maneira insistente em sua pintura.
SÁBADO, 27 DE DEZEMBRO DE 2025
Quando tinha quatro anos, sua irmã mais velha, com
doze, ensinou-lhe matemática e cálculo. Simultaneamente, sua pequena professora
e cúmplice conseguiu compreender o funcionamento da gramática interna da psiqué
de seu irmão. Logo percebeu que era alguém talhado para desenvolver coisas do
espírito, pela sensibilidade e pela maneira como reagia aos afetos dos pais.
Assim, incitou-o a desenvolver esse talento latente. Ora, já na caligrafia,
fazia com primor o desenho das letras do alfabeto.
Logo matriculado no ensino formal, nada foi difícil ou
incompreensível, pois sabia ler e escrever. O tempo que os colegas de classe
dedicavam às noções básicas da língua e da matemática, elejá empregava no
manuseio dos lápis, engendrando desenhos que o exultavam interiormente,
aplacando anseios emanados de um menino.
Com efeito, as imagens que repousam no
inconsciente, podendo se transmutar em palavras quedadas em espera de eclodir,
não estão vinculadas à idade. Um olhar arguto contempla o modo de andar, o
semblante, o timbre de voz. Desse modo, se fizer uma aposta consultando seu
coração e seus oráculos interiores, dificilmente perderá o valor do que se
apostou. E vero: tatear a maneira como funcionam os cinco sentidos não apenas
dá prazer, mas também pode ser um elemento incentivador de um talento em
esboço.
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Vejamos suas esculturas: pedras de alabastro (uma forma de calcita branca, carbonato de cálcio, translúcida e macia para ser esculpida). Na Antiguidade, era usado para confeccionar vasos condutores de óleos e perfumes e, no Egito, para vasos canopos, portadores das vísceras retiradas do corpo do faraó a ser mumificado. São bem mais maleáveis para se trabalhar, vindos da Espanha, Itália e Portugal.
Marc de Groot limita a escultura aos torsos nus, como
se quisesse afirmar domínio sobre a técnica de esculpir, talvez não valendo se
estender por peças de corpo inteiro. Ocorrem ausências de rostos e semblantes,
restritos ao tórax e às pernas, sempre permitindo entrever as partes mais
voltadas para a sensualidade de um corpo nu que se expõe: peitos, ombros,
genitália e nádegas.
Também trabalha com torsos de costas, sempre nus,
dotados de sensualidade e de um silêncio que declara se encontrar pleno de si
próprio, numa posição que remete a um sinal de aceitação do corpo, apesar dos
defeitos e limites. E, se quisermos tatear as áreas relacionadas aos sentidos,
inclusive a intuição, nada em seu corpo remete à autopunição ou a uma lascívia
autopunitiva.
Portanto, é uma eloquência que só a cor branca, esculpida e polida no mármore, pode proclamar: o valor e a importância de elaborar coisas que acrescentem ao real algo provido de beleza, graça e gratuidade do harmônico, da tranquilidade. E tão belo como um sim / numa sala negativa (João Cabral de Melo Neto). Parece que a regra básica é deter-se sobre o torso, destituindo a peça da cabeça e cortando as pernas até a genitália, enfatizando a musculatura e um desenho cujo prisma objetiva ressaltar um corpo saudável e pleno de ânimo e gosto por estar vivo.
Sua trajetória no seio da pintura a óleo se encerrou
aos 32 anos, devido ao fato de precisar estar sozinho para empreender os
trabalhos relativos ao ato e costume de pintar. Casou-se, perdendo essa
benfazeja solitude cultivada desde sempre. Parece existir uma incondicional
escolha de se contentar consigo mesmo. Essa é uma tendência contemporânea,
cujas declarações de pessoas com projeção social deixam transparecer essa busca
por recolhimento.
Ao que parece, pelo físico longilíneo, magro, voz
pausada e olhar natural dentro do olho do interlocutor, possivelmente possui um
temperamento saturniano, buscando em terras de luto atenuado a solidão que
tanto o gratifica, que tanto diz dele, que tanto necessita para ter ânimo e
enfrentar com coragem e resiliência o dia bastante duradouro, já que desperta
muito cedo e logo levanta, faz café e fuma algum cigarro.
Apesar desse hábito de quedar-
27 DE
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12 Domingo Jomal
de Fato
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se diante de si mesmo, não rejeita o convívio
social, tanto na faculdade quanto recebendo amigos em seu flat. E uma pessoa
extremamente acolhedora como anfitrião no local onde reside.
Após 30 anos sem a paleta e os pincéis,
retornou ao seu pendor nunca apagado. Precisou apenas dominar as técnicas da
tinta acrílica, abandonando o óleo. As brasas do talento estavam apenas
quietas, até que, por uma determinação interior, logo o fogo assomou, límpido e
claro, a iluminar regiões pelágicas do seu ser, no qual se depositam as imagens
do humano. Trouxe primícias que a todos surpreenderam, por serem diferentes do
que era sua dicção estética de outrora.
Até parece que nada é por acaso: a vida se
aproxima de modo sutil, sem ser explícita no que demanda da gente. O fato de
ter vindo morar no Brasil levou, quase naturalmente, a iniciar uma vita nuova,
tanto em relação a cursar outra faculdade quanto à renovação da índole do
artista que se encontrava adormecido.
Vejamos como se caracteriza sua dicção
estética no que concerne à pintura. E necessário partir da paleta cromática, do
manejo das cores, pois o uso de suas cores se encontra em adjacências mais
dramáticas do que líricas. Como sucede com artistas que se dirigem às paisagens
naturais, com o intuito de expressar uma busca por um ambiente bucólico.
Observemos como isso acontece em Marc de
Groot. Podemos contemplar conjunções de cores mais fortes, tais como um azul
escuro, um verde mais puro, um amarelo-fogo, um roxo fechado, um lilás
esmaecido. Por meio do
SÁBADO, 27 DE DEZEMBRO DE 2025
manuseio
dessas tintas antípodas, elabora conjunções de grande beleza plástica, sempre
buscando imprimir um caráter dramático à retratação de paisagens da natureza.
Com efeito, poderia ser a busca de um locus
amoenus, mas não vigora esse sentimento, tão querido pelos românticos. Há outra
forma de os românticos representarem a realidade. Existe uma tradição da
pintura romântica de paisagens naturais em ambientes fechados, sombrios, em que
o humano se encontra só, contemplando a natureza de maneira extremamente
melancólica.
Ora, quando os românticos se fizeram retratar
em paisagens distantes do urbano, estavam felizes em balanços pendurados em
árvores, faziam uma pausa na diversão, comiam alguma coisa sobre tapetes ou
panos. Com certeza não é o caso dos nossos artistas, voltados, talvez, para uma
projeção de seu estado atual.
Muito mais se percebe a sugestão de imagens
voltadas a inventar composições nas quais o sombrio e o fechamento da ambiência
estão presentes para conclamar o espectador. E perquirir, afinal de contas,
quais as razões que o conduzem a se expressar dessa maneira. A morte ainda está
bem próxima. O luto apenas deu início ao seu rosário de penas.
Com efeito, há que se deter sobre cada conta
que forma o rosário, vindo às súplicas do nosso comportamento diante do morto.
Na verdade, é uma elaboração por meio do bom senso, de entrega, de busca do que
aquela pessoa que se foi nos deixou de sabedoria, de momentos bons, de um tempo
duradouro, visando enfatizar o que as relações afetivas podem nos proporcionar
de bem e de bom. Essa é a necessidade inexorável do trabalho de luto, deixando
o outro estar como presença ausente. Essa postura nos diz do que se encontra no
processo de compreender o comportamento de quem partiu tão cedo.
E preciso insistir nessa obstinação em plasmar
em telas com acrílica, basicamente duas cores opostas: o amarelo-fogo e o
azul-escuro, podendo aparecer o verde como elemento para separar as duas cores
primaciais. Ocorre que essas marcas criadoras de uma atmosfera sombria e
dramática hesitam, às vezes, entre o figurativo e o abstrato. Lembro aqui as
marinas de Dorian Gray e Goreth Caldas, nas quais se atesta uma dúvida: se é
uma paisagem marítima ou se é um exercício abstracionista.
Ainda as retratações do mesmo topos: paisagens naturais, com um foco
invariante, persistente na maioria das telas, cuja presença é uma ou mais
árvores. Repetem-se as cores já citadas, reverberando um ambiente em ausência
de luz solar. Curioso é ser possível um traço assinalando quase todo o conjunto
dos quadros nos quais as plantas estão presentes: há uma reclinação, como se
tivessem crescido com o sopro de um vento mais forte.
O artista logra êxito ao plasmar com mais intensidade a árvore
ocupando todo o centro da tela, manuseando a paleta com suas cores preferidas:
o verde da árvore, o amarelo das terras desprovidas de vegetação rasteira, o
azul intenso e o roxo, sempre funcionando como plano de fundo ou preenchendo
toda a parte superior da tela.
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Essa justaposição de cores não é recorrente na maioria dos pintores, haja vista o resultado: uma aparência lúgubre, escura, em que não há a iluminação do sol. E, quando ocorre a luz, esta vem da presença de um amarelo, quebrando um pouco a índole dramática de certas árvores solitárias, desprovidas da presença humana. Sobranceiras nuvens testemunham do alto a feição da organização de elementos restritos ou retirados dos caminhos ou das árvores.
Na verdade, menos que o referente (tema,assunto,topos),
o que nos chega de sombrio vem por meio do uso das cores. Ao que parece,
pressupõe um grande conhecimento da teoria das cores. Ou seja, não é
espontâneo, mas uma deliberação da subjetividade desassossegada do pintor.
Podese fazer o elogio das cores, mas longe de mim esquecer do domínio do
artista sobre o desenho acadêmico.
Ocorre que essas marcas criadoras de uma atmosfera taciturna nos permitem indagar o que se passa no íntimo do artista — se é, quem sabe, reflexo de seu estado de alma, de uma realidade eivada de angústias. Esses dados biográficos não interessam muito, pois, como sabemos, arte é como se faz, não o que se faz. O contraste forte e vibrante de cores também nos causa empatia, também nos conduz a refletir acerca de uma singularidade representando o plural. Eis o que pode nos levar a pensar em um cunho de universalidade nas obras de Marc de Groot... Trata ele da condição humana, do que é inevitável, do que a Fortuna impõe com seus capriChos e suas regras, ante as criaturas impotentes.
Por fim, gostaria de extrair uma metáfora decalcada da
forma como grande parte das árvores estão retratadas. Sim, estão derreadas, com
uma inclinação voltada para o chão. Lembra-me um ditado, possivelmente japonês,
que estabelece uma relação entre os bambus que se inclinam por causa da
presença de um vento que sopra.
Assim, eles querem dizer da necessidade de se ter ânimo
diante das atribulações, aceitar as vicissitudes e os limites impostos pela
vida e pelo tempo. Ora, podemos até nos inclinar estrategicamente, mas não
podemos deixar-nos abater, cair no chão. Melhor é vergar, aquiescer, banharse
no rio da resiliência. Há que ser forte diante dos dissabores que a vida nos
entrega sem que estejamos preparados para enfrentar. Há que perseverar, como
Ulisses na Odisseia, com fulcro em suas navegações, dizendo sempre o mote: essa
é mais uma para superar.


